Anticoncepcional oral contínuo  

Se lhes fosse dada a opção, uma em cada três mulheres gostaria de eliminar definitivamente a menstruação de sua vida. O dado consta de uma pesquisa inédita do laboratório Bayer Schering Pharma, com 3 400 adolescentes e adultas, entre 16 e 49 anos, de cinco países – entre eles, o Brasil. A opção por não menstruar, via pílula anticoncepcional, já é corriqueiramente recomendada por médicos. Nos últimos anos, porém, o uso contínuo do medicamento, antes mais comum em mulheres acima de 30 anos, tem atraído as mais jovens. Para elas, não menstruar significa passar a temporada de praia sem contratempos ou poder usar aquela minissaia branca totalmente despreocupada. Mas o mais relevante é que, assim como para as mais velhas, representa o fim das cólicas e dos indefectíveis sintomas da TPM – inchaço, mau humor, dor de cabeça, choro fácil, irritação e aumento de apetite. "As adolescentes atuais formam uma geração que começou a menstruar muito mais cedo e sofre com os sintomas da tensão pré-menstrual desde os 10, 12 anos de idade", diz o psiquiatra Joel Rennó Júnior, diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Natural, portanto, que elas queiram se livrar do pesadelo mensal. Apesar de ainda influenciadas por certos mitos do passado, como o que atribui à menstruação um atestado de saúde e fertilidade, essas jovens tendem a aceitar melhor a sua ausência do que as mulheres que têm hoje mais de 40 anos. Amparadas pela medicina, que tende a não ver mal nenhum na supressão da ovulação e da menstruação, o caminho está ainda mais livre para elas. A Bayer estuda, inclusive, a criação de uma agenda eletrônica, no formato de um iPod, na qual elas poderão programar o tempo que gostariam de ficar sem menstruar.

Quanto ao receio de ter a fertilidade comprometida lá na frente, diz Afonso Nazário, chefe do departamento de ginecologia da Universidade Federal de São Paulo: "Não há nenhuma evidência científica de que a supressão da menstruação reduza a taxa de fecundidade da mulher". Ao contrário: certos estudos, embora de curto prazo, mostram que a taxa de retorno à fertilidade, uma vez suspenso o uso contínuo, é comparável à do regime convencional. Mas é bom que se diga: nenhum dos medicamentos utilizados para cessar a menstruação é 100% eficaz. Perdas sanguíneas irregulares e imprevisíveis, a cada dois ou três meses, são comuns em cerca de 35% dos casos.

Até a década de 90, os médicos só recomendavam a suspensão do ciclo menstrual para mulheres com problemas específicos, como anemia ou endometriose, doença em que parte do sangue que deveria ser expelido fica acumulada na cavidade abdominal. Embora não existam pesquisas sobre o uso contínuo da pílula por muitos anos, por se tratar de uma prática relativamente recente, a maior parte dos especialistas acredita que os contraceptivos de última geração, principalmente, não trazem risco algum à saúde. Inclusive porque têm um quinto da quantidade de hormônios presentes nas primeiras pílulas. Seja para a indicação tradicional ou para interromper a menstruação, o fato é que a pílula, cuja primeira versão foi lançada em 1960, é uma cinquentona para lá de sacudida: já está provado que seu uso diminui a incidência de cânceres de ovários, endométrio e também de doenças que provocam infertilidade.

Quando chegou às farmácias, o contraceptivo inventado pelo endocrinologista americano Gregory Pincus era o primeiro remédio a ser tomado regularmente por pessoas saudáveis. Mas comercializar um medicamento que poderia impedir para sempre a ovulação seria um rompimento ainda maior de barreiras culturais e religiosas. A solução foi incluir um intervalo de uma semana na cartela, para imitar o ciclo menstrual feminino de 28 dias. "A pausa para menstruar foi uma forma que a indústria farmacêutica encontrou para introduzir o produto no mercado com menos traumas", diz a antropóloga Daniela Tonelli Manica. Ou seja, a prescrição da interrupção regular da pílula não tem nem nunca teve a função de eliminar impurezas por meio da menstruação ou de aliviar o organismo dos hormônios sintéticos. Em condições normais, a glândula hipófise comanda a liberação de dois hormônios, o folículo-estimulante (FSH) e o luteinizante (LH). Eles induzem a secreção de estrogênio e progesterona pelos ovários, responsáveis por preparar o corpo para a reprodução. Apesar da dose baixíssima, a combinação dos dois hormônios sintéticos leva a hipófise a entender que já há estrogênio e progesterona suficientes em circulação. Enganada, ela interrompe o processo de ovulação – que, entre as mais jovens, é motivo de aversão, mas, depois da menopausa, é causa de nostalgia. Vá entender as mulheres...

(Fonte : Revista Veja - Edição 2164)